O meu primeiro beijo foi uma experiência bastante deprimente.
Desde cedo tive uma percepção de que existem coisas que não se podem distribuir sem dar uma importância particular. Nunca tinha beijado um rapaz e desejava que esse momento fosse perfeito (ou não fosse eu aspirante a mulher). Estava a entrar na adolescência e tinham começado os meus problemas. Até então, tinha sido muito mais rapaz que rapariga com penteado curto de risco ao lado, calças largas que se tinham tornado justas, camisolas que quase tinham deixado de servir devido ao peito em franca ascensão, e os meus fieis companheiros de pião que começavam a olhar para mim com outros olhos.
Inevitavelmente iniciei a tentativa de me relacionar mais com as colegas, mas devido ao meu historial de “rapaz” tive de passar por uma série de provas de fidelidade feminina. Uma delas seria beijar um rapaz.
Lembro-me como se fosse hoje. Após vários meses de dura resistência, não havia mais como fugir. Os adolescentes conseguem ser muito cruéis. Elas foram todas para as traseiras da escola jogar ao famoso bate-pé e eu acompanhei. Marco, chamava-se Marco (eu que sou terrível a lembrar-me do nome das pessoas ainda me lembro do dele). Era muito moreno, com sobrancelhas carregadas que quase se uniam e tinha um sorrido lindo. Pediu-me um “chocho”. Tentei dizer que não estava a jogar mas os olhares cortantes das minhas novas amigas trespassaram-me de imediato. Disse que sim. Ele chegou perto. Não gostei do cheiro dele, intenso. Estava de sorriso aberto e ia ter a sua calma a dar o dito beijo, porque se aproximava devagar. Numa fracção de segundos, dei-lhe um beijo rápido nos dentes (nos dentes! Ele continuava a sorrir…) e fugi dali para fora. Fui à casa de banho. Vomitei. Tentei lavar a boca várias vezes. Mas não havia nada a fazer, já tinha acontecido e nenhuma água me removia o contacto anterior.
Lembro ainda que nessa noite não dormi. Tinha 13 anos. Santa inocência.
Nunca mais vi o Marco. Ele voltou para Espanha com os pais poucas semanas depois.
Tive a minha primeira paixão meses mais tarde. Nunca o beijei.
Muito se passou, mas essas histórias ficam para depois.
Já beijei, muito.
Já fui beijada, imensamente.
Já fui marcada.
A arte de beijar está no gosto com que se dá um beijo. Está em conhecer as linhas da boca do outro com a ponta da língua. Nos pequenos beijos em cada recanto dos lábios. Na delícia da dança de línguas. Nas borboletas que voam no estômago sempre que os lábios se tocam, mesmo só ao de leve. Está no palpitar da pele e na dormência de movimentos que um simples beijo nos faz.
Só tive um verdadeiro beijo mágico até ao dia de hoje. O mundo desapareceu nesse momento que pareceu não ter fim. Vivemo-lo da mesma maneira. Eu e ele. Mágico, único. O beijo de uma vida inteira.


Como toda a gente já beijei muito, como qualquer homem não tenho lembranças do meu primeiro beijo, lembro-me do sabor daquele beijo, esse lembro-me, ainda hoje, e tenho a felicidade de o poder repetir todos os dias.
marinheiroaguadoce a navegar